O GOSTAR INOCENTE
Quando eu era menino, aquela idade infantil em que os adultos pensam que não percebemos as coisas, eu tive uma professora de desenho fabulosa. Chamava-se Mariazinha e era a empregada doméstica de minha avó materna. Eu ia sempre à casa desta minha avó porque gostava de aprender. Com os deveres do grupo escolar eu os trazia sempre em ordem e feitos dia a dia. Eu tinha um maravilhoso senso do dever, e gostava de cumprir meu dever com as coisas. Com a Mariazinha não era diferente. Ela me encomendava desenhos de coisas e animais do mundo dela, e eu dava meu jeito de fazer o desenho. Chegava na casa de minha avó e submetia os desenhos do dia a ela, a Mariazinha, para ver se ela aprovava. Ela, em sua bondade, que inclusive me atrapalhava porque eu me perguntava se meus desenhos eram de fato bons, me dizia que eu era bom no desenho. Com o tempo, fui deixando de desenhar, porque na minha ansiedade de sempre aprender fui avançando nos meus estudos, e aqui estou. Mas de Mariazinha eu não me esqueci. É como se eu tivesse uma grande dívida afetiva e viesse hoje aqui pagá-la.
Nos dias em que Mariazinha adoecia e o irmão dela ia à casa de minha avó avisar, eu quase adoecia também. Peço aqui agora aos maliciosos, que segurem sua malícia, e que vejam no que contei a estória da dependência sentimental de um menino de sua mestra de origem mais humilde que ele. E foi Mariazinha que me fez gostar tanto das pessoas humildes quanto das coisas do intelecto. E digo que gosto de pessoas humildes hoje ainda, que também têm dons, sendo eu um homem de classe média. E desde menino eu percebia como essa gente humilde é mal aproveitada.
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